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Obesidade em tempos de Pandemia: dicas para hoje e as preocupações com o amanhã

Obesidade e COVID-19, dois problemas de saúde pública que Portugal tem de combater. E se por um lado a obesidade é fator de risco para complicações em caso de infeção por coronavírus, por outro lado a pandemia obrigou à suspensão de consultas e tratamentos, ao confinamento, que pode gerar falta de exercício e escolhas alimentares pouco acertadas. Este contexto pode piorar um cenário que já era pouco animador. Profissionais de saúde e doentes estão apreensivos e afirmam ser necessário a retoma urgente do tratamento e acompanhamento das pessoas com obesidade.

Em Portugal, mais de metade da população (62%) sofre de obesidade ou pré-obesidade, segundo um estudo recente do Instituto Ricardo Jorge. Este problema poderá agravar-se em tempos de pandemia por COVID-19, devido à redução da atividade física - que habitualmente era promovida nas deslocações entre casa e trabalho ou em visitas a locais dedicados para a atividade física –, devido a escolhas alimentares menos saudáveis e também devido à suspensão das consultas e dos tratamentos, nomeadamente o cirúrgico.

“Muitas pessoas contactam a associação em busca de informação sobre o tratamento da obesidade e sobre a retoma das consultas de acompanhamento e das cirurgias de tratamento. Também há quem pergunte sobre o risco aumentado de complicações que as pessoas com obesidade podem ter em caso de infeção por COVID-19. Já estávamos preocupados com o panorama da Obesidade em Portugal e estamos apreensivos em relação a como ficará após a pandemia, pois é muito provável que o número de pessoas com obesidade aumente, devido à falta de tratamentos e também ao facto de algumas pessoas com excesso de peso e pré-obesidade poderem agora passar a constar da lista de pessoas com Obesidade”, destaca Carlos Oliveira, presidente da Associação dos Obesos e Ex-Obesos de Portugal (ADEXO).

“Já estávamos preocupados com o panorama da Obesidade em Portugal e estamos apreensivos em relação a como ficará após a pandemia”

-Carlos Oliveira

Paula Freitas, presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, concorda que “o confinamento tem um impacto na mobilidade e também pode ter na regulação do apetite o que, mesmo por curtos períodos de tempo, pode aumentar o peso com consequente incremento no risco de doença metabólica e agravar a situação de quem já sofria de excesso de peso ou obesidade”. Para ajudar as pessoas com pré-obesidade ou obesidade a prevenir o agravamento do seu estado de saúde em tempos de pandemia, Paula Freitas deixa as seguintes dicas:

  • Mantenha-se ativo e pratique exercício físico – O tempo de confinamento não deve ser sinónimo de inatividade. É importante manter a atividade e fazer um programa de exercício físico, que não precisa de ser complexo. No que toca à atividade, coisas simples como levantar pesos com a mercearia que tem em casa, descer e subir as escadas do prédio ou circular pela casa enquanto fala ao telemóvel podem ajudá-lo a gastar calorias.
  • Faça uma alimentação saudável e não descure a hidratação – Passar mais tempo em casa pode convidar a refeições mais demoradas e exageradas ou a snacks mais frequentes. É importante que continue a seguir os conselhos dos seus médico e nutricionista assistentes e opte por uma alimentação saudável, equilibrada e evite os alimentos hipercalóricos. Deve ainda manter uma boa hidratação, bebendo sobretudo água e evitando a ingestão de bebidas alcoólicas e açucaradas, que além de muito calóricas podem contribuir para a desidratação.
  • Conheça os seus riscos. As pessoas com obesidade e diabetes tipo 2 (muitas vezes associada à primeira) não têm maior probabilidade de contrair COVID-19 do que a população em geral. No entanto, a COVID-19 pode causar sintomas mais graves e complicações nas pessoas que vivem com obesidade e outras doenças associadas.

A obesidade não escolhe idades

“A obesidade é uma doença crónica, complexa e multifatorial que está associada a mais de 200 outras doenças, como diabetes, dislipidemia, hipertensão arterial, síndrome de apneia obstrutiva do sono, síndrome metabólica, doenças cardiovasculares, incontinência urinária, e cerca de 13 tipos de cancro. Afeta crianças, jovens, adultos e idosos e tem uma prevalência tal que já foi considerada a epidemia do século XXI”, informa Paula Freitas.

“A obesidade é uma doença crónica, complexa e multifatorial que está associada a mais de 200 outras doenças”

-Paula Freitas

Carlos Oliveira sublinha: “É importante que as pessoas percebam que a obesidade é uma doença crónica e que é um problema que pode surgir em qualquer pessoa, em qualquer idade ou momento da sua vida. Eu fui desportista durante toda a minha infância e juventude e em cerca de 20 anos passei dos 70kg para os 156kg.

Só me comecei a tratar quando já tinha outros problemas de saúde associados à obesidade. Tinha pré-diabetes e Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono. Tudo isso despareceu com a perda de peso. Fiz cirurgia bariátrica em 2000 e desde aí nunca mais tive nenhum dos problemas mencionados. Isto mostra que tratar a Obesidade, que é muitas vezes a fonte de vários outros problemas de saúde, poupa muito dinheiro ao Estado a longo prazo, dinheiro que ia ser gasto com o tratamento das comorbilidades da obesidade.

Paula Freitas alerta que “é muito importante destacar que nem todos os doentes têm indicação para cirurgia. De um modo geral, podemos dizer que a cirurgia está indicada para pessoas com índice de massa corporal superior ou igual a 40Kg/m2 ou superior a 35 Kg/m2 se concomitantemente tiverem comorbilidades associadas. E, é precisamente neste fosso entre a obesidade com indicação cirúrgica (obesidade mórbida) e a obesidade grau I que é preciso atuar, promovendo a prevenção de formas mais graves de obesidade e tratando desde logo as pessoas com os níveis menos graves de obesidade. Para isso é essencial que os tratamentos farmacológicos passem a ser comparticipados em Portugal.”

Carlos Oliveira lembra que foi exatamente para lutar pelos direitos de acesso a tratamento da obesidade que a Adexo foi criada. “A ideia de criar a associação nasce numa sala de espera de hospital quando um grupo de indivíduos obesos vê no jornal uma notícia a dizer que a obesidade é uma doença. Olhámos uns para os outros e soubemos que tínhamos de nos unir para lutar para que as pessoas com obesidade fossem tratadas como pessoas com qualquer outra doença, tendo os mesmos direitos e acesso a tratamento”.

Paula Freitas confirma que ainda há muito a fazer no tratamento da Obesidade. “Apesar de Portugal ter sido o primeiro país da Europa a reconhecer a Obesidade como doença, em 2004, ainda há muito a fazer. Sim, estamos muito à frente de outros países da Europa, mas as pessoas sem indicação para cirurgia ainda não têm acesso gratuito ou comparticipado aos tratamentos farmacológicos para a sua doença”.

É sobre estes e tantos outros temas importantes para as pessoas que queremos falar neste espaço dedicado à obesidade, para alertar e promover a consciencialização para esta doença crónica e acabar com os estigmas a ela associados.

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